terça-feira, 2 de agosto de 2016

CONFIAR EM ALGUÉM É MUITO DIFÍCIL



Sempre foi difícil ser eu, ainda mais numa sociedade onde os padrões estabelecidos impunham regras a todos, e eu não entendia nada disso, apenas não queria ser o estranho, o diferentão. Mas não era eu, eu não pertencia àquela comunidade CTRL-C/CTRL-V, e isso foi difícil. Morava num bairro onde todos os colegas escutavam as mesmas músicas, se vestiam igual, agiam igual, eram imbecis iguais aos outros, e eu era um deles, afinal, eu precisava de um lugar na sociedade, não poderia ser uma ilha aos 12 ou 13 anos.
Na escola nenhuma garota se interessava em mim, os colegas eram indiferentes, nunca fui aquele que fazia falta quando não vinha à aula. Sei lá, talvez eu fosse mesmo um estranho, mas era eu mesmo, não podia me fingir. Mas por um bom tempo tive que fingir ser quem não era pra conviver sem ser execrado. A parte mais difícil era ser introspectivo demais, e isso tornava as coisas mais difíceis ainda. Eu odiava a escola que estudava, mas preferia estar lá a ir pra casa e entrar num vazio particular inviolável. Entre os 12 e 17 anos eu não sei como não pus fim a tudo. Nunca entendi o motivo de ser gratuitamente excluído, e isso por muito tempo me consumia por dentro. Mas nunca tinha ninguém que eu confiasse para despejar toda essa angústia. Então guardava. E de tanto guardar acho que ainda existe tanta coisa dessa época vagando dentro de mim que ainda machuca. Por isso eu ultimamente simplesmente afastei de mim a maioria das coisas e pessoas desse período. Sempre que lembro me dá agonia, muitas vezes por ter sido calado e poucas vezes ter rebatido ou enfrentado as situações e pessoas. O problema é que às vezes eu pareço voltar no tempo e meu ódio daquela época se mostra tão atual que se encontrasse alguém que me fez mal no passado sou capaz de descarregar esse ódio mesmo se ele ou ela hoje for uma pessoa do bem.
Eu sou disléxico! Devo ser desde criança, mas ninguém nunca percebeu, a final, dislexia era frescura, desculpa para ser chamado de preguiçoso por todos. Então isso era umas das coisas que me deixavam sem entender nada também. Eu não entendia o motivo de não conseguir me concentrar nas coisas, e viajar em apenas um instante de distração. Pronto estava formado todo um conceito de um adolescente cheio de arestas ainda para serem retiradas de modo a formar um ser adulto e formado; é preguiçoso, não gosta de estudar, não faz nada pra ninguém, não tem responsabilidade, etc... Sério! Como se pode esperar responsabilidade de um adolescente, ainda mais num berço cheio de remendo e desnível? A fase onde mais se espatifa a cara no chão, onde mais se faz merda, onde se descobre tudo, se podada ou ultrapassada, as consequências são complicadas de restaurar. Sério! Gostaria de ter filhos apenas para ver eles fazendo merda, se fodendo mesmo, e eu sentar com eles dizer: Erre! A hora de errar é agora! Pois mais na frente a vida não permitirá esse tipo de erro, e as pancadas serão fortes e inesperadas.
Eu sou hoje um reflexo de muitos erros não cometidos, de muitas merdas não feitas, de muitos gostos e sabores não sentidos, de tantas coisas não ditas, de tantas sensações não sentidas. Mas também houve coisas boas, no entanto não são importantes agora, pois não estão influenciando em nada, por que se perdem no meio de tanta coisa sombria de uma passado tão mutilado. Eu não era um adolescente atraente!
Mas isso não era motivo para tanta coisa ruim que passei por tanto tempo, onde ninguém notava, até que eu fizesse algo,e fiz algumas vezes. Mas aí foi preciso eu chamar a atenção de forma brusca.
Muitos jovens que cometem suicídio, mandam sinais, avisam aqueles mais próximos, deixam sutilezas, nunca é totalmente invisível. Mas a nossa querida sociedade insiste em tratar depressão como frescura ou fase de adolescente rebelde.
Como falei acima, eu não pus um fim em tudo por muito pouco. Se eu não fosse forte como fui, teria posto um fim a tudo de uma vez, sem cartinha, sem despedida, sem nada. Sairia desde mundo do mesmo jeito que cheguei, sem fazer um barulho sequer(segundo minha mãe eu nasci calado, e só gritei porque levei um tapa).


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